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No verão, com as temperaturas a subir e o carro a transformar-se numa pequena estufa, é comum ver condutores a circular em tronco nu, sobretudo em trajetos curtos até à praia. Mas será que esta prática é legal? É um dos mitos urbanos mais repetidos todos os verões, ao lado de "conduzir de chinelos dá multa" - e a resposta, tal como nesse caso, não é tão simples como um simples sim ou não.

Este artigo explica o que diz o Código da Estrada português sobre conduzir em tronco nu, em que situações esta prática pode, de facto, resultar numa coima, e porque é que, mesmo sendo legal, pode não ser a melhor opção.

Conduzir em tronco nu é proibido em Portugal?

A resposta direta é não: não existe, no Código da Estrada português (Lei n.º 72/2013, de 3 de setembro), qualquer artigo que proíba especificamente conduzir sem camisola, em tronco nu ou descalço. A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) já esclareceu publicamente, por diversas vezes, que não há uma norma que torne esta prática, por si só, uma contraordenação.

Ou seja, tal como já explicamos sobre conduzir de chinelos, a lei portuguesa não regula diretamente o vestuário (ou a ausência dele) ao volante. O que a lei regula é a forma de conduzir, independentemente do que se veste.

Quando é que conduzir em tronco nu pode dar multa

Ainda que não exista uma proibição direta, há uma norma geral do Código da Estrada que pode, em certas circunstâncias, aplicar-se a esta situação. O artigo 11.º, n.º 2, do Código da Estrada determina que "os condutores devem, durante a condução, abster-se da prática de quaisquer atos que sejam suscetíveis de prejudicar o exercício da condução com segurança". Quem infringir esta norma está sujeito a uma coima entre 60 € e 300 €, conforme o n.º 4 do mesmo artigo.

Na prática, isto significa que conduzir em tronco nu não é, por si só, motivo de multa — mas se um agente considerar que, naquela situação concreta, isso está a comprometer a capacidade do condutor para conduzir com segurança (por exemplo, se a transpiração excessiva provocar perda de aderência ao volante, ou se surgir uma situação de distração associada), a contraordenação pode ser enquadrada nesta norma geral de segurança, e não numa regra específica sobre vestuário, que simplesmente não existe.

Outros mitos parecidos: chinelos, descalço, sem t-shirt

Este tipo de dúvida repete-se todos os verões com outras variantes: conduzir de chinelos, descalço ou de fato de banho. Em todos os casos, o princípio legal é o mesmo: não há uma proibição específica sobre o calçado ou vestuário, mas existe sempre o dever geral de conduzir em segurança. Este tema, incluindo as recomendações da GNR sobre calçado adequado, está detalhado no artigo conduzir de chinelos dá multa? O que diz o Código da Estrada.

Porque pode não ser a melhor ideia, mesmo sendo legal

Legal não significa necessariamente recomendável. Há pelo menos três razões práticas a considerar antes de optar por conduzir em tronco nu, sobretudo em viagens mais longas.

  1. Atrito do cinto de segurança diretamente sobre a pele. Em caso de travagem brusca ou acidente, o cinto de segurança exerce uma pressão considerável sobre o corpo. Sem uma camada de roupa entre o cinto e a pele, o risco de abrasões e lesões cutâneas na zona do peito e do ombro é maior.
  2. Exposição solar direta. Os vidros do carro filtram parte da radiação UV-B, mas deixam passar boa parte da radiação UV-A, responsável pelo fotoenvelhecimento e que também contribui para o risco de cancro de pele em exposições prolongadas e repetidas. Isto é particularmente relevante no lado do condutor, mais próximo do vidro lateral. Em viagens longas ao sol, vale a pena rever também as dicas sobre proteção solar para o carro e sobre como arrefecer o carro em dias de onda de calor.
  3. Transpiração e aderência ao volante. Em dias de muito calor, a transpiração pode reduzir a aderência das mãos ao volante e tornar o contacto com o banco mais desconfortável, o que pode causar distração ao longo de uma viagem mais longa — precisamente o tipo de situação que pode enquadrar-se no artigo 11.º, n.º 2, já referido.

E se for o passageiro, não o condutor?

A mesma lógica aplica-se aos passageiros, com uma diferença: como não estão a conduzir, o artigo 11.º, n.º 2, que se refere especificamente ao exercício da condução, não se aplica da mesma forma. Ainda assim, vale sempre a pena algum bom senso, sobretudo em viagens com outras pessoas no carro, incluindo crianças, ou em paragens em áreas de serviço, restaurantes ou postos de abastecimento, onde as regras de acesso podem ser diferentes das que se aplicam apenas ao habitáculo do veículo.

Portugal não é caso único

Esta dúvida não é exclusiva de Portugal: em muitos outros países europeus, a legislação rodoviária segue uma lógica semelhante, regulando o comportamento e a segurança do condutor em vez de impor regras específicas sobre vestuário. Isso não significa, no entanto, que a prática seja igualmente comum ou aceite em todo o lado - em muitos casos, é mais uma questão de norma social do que propriamente legal, o que ajuda a explicar porque é que este mito continua tão presente todos os verões, apesar de nunca ter existido, de facto, uma proibição direta.

O que a lei diz, na prática

Resumindo: conduzir em tronco nu não é ilegal em Portugal, e não existe qualquer artigo do Código da Estrada que o proíba diretamente. A multa só pode surgir se, na avaliação de um agente de trânsito, essa condição concreta estiver a comprometer a capacidade de condução em segurança, ao abrigo da norma geral do artigo 11.º, n.º 2 - a mesma que se aplica, por exemplo, a conduzir descalço ou de chinelos.

Vestido, em tronco nu ou de chinelos, há uma coisa que a lei exige sempre, sem exceção: o uso do cinto de segurança em todos os lugares equipados com ele, independentemente do vestuário utilizado.

Vestido ou em tronco nu, a segurança é sempre obrigatória

No fundo, a lei portuguesa não se preocupa com o vestuário usado ao volante, mas sim com a forma de conduzir. Conduzir em tronco nu não implica uma multa automática, mas se essa escolha comprometer, de alguma forma, o controlo do veículo, a contraordenação pode aplicar-se na mesma - não pela roupa (ou pela falta dela), mas pela segurança que ficou em causa.

Antes de uma próxima viagem de verão, vale a pena rever outros cuidados que fazem a diferença nos dias mais quentes, como preparar o carro antes de sair de casa. O checklist para preparar o carro para viajar ajuda a chegar a cada destino com mais tranquilidade - seja qual for o vestuário escolhido, desde que em segurança.




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